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Acervo Virtual Antônio Candeia Filho

Artigo publicado na Revista CAROS AMIGOS, edição nº 80, ano VII, novembro de 2003 (pág 30)

Transcrito por: Sonia Palhares Marinho Luís Pimentel

 

CANDEIA, lição permanente de samba e resistência

 

"Hoje é manhã de Carnaval/ Há esplendor/

As escolas vão desfilar garbosamente/

E aquela gente de cor/ Com a imponência de um rei/

Vai pisar na passarela."

(Dia de Graça)

 

Antônio Candeia Filho viveu pouco, apenas 43 anos, mas criou intensamente e deixou uma obra e uma história de vida que só enchem de orgulho seus pares e seus seguidores. Mito da resistência cultural brasileira - a criação da escola de samba Quilombo, em meados da década de 70, é o exemplo maior de sua identificação e militância nessa área -, um dos grandes nomes da grande Portela e considerado um dos compositores mais importantes da música popular brasileira, Candeia teve o seu nome lembrado e festejado nos últimos anos, por meio de várias regravações de seus sambas e de inúmeras homenagens prestadas a ele e à sua obra. Começou a frequentar a Portela, virou compositor da escola e em 1953, antes ainda de completar 18 anos, viu sua gloriosa agremiação de Madureira desfilar com um samba-enredo de sua autoria, "As Seis Cartas Magnas". A Portela não venceu o Carnaval, mas a nota 10 obtida no quesito samba-enredo carimbou o passaporte do autor para o mundo do samba.

 

O Candeia essencialmente participativo e contestador começa a despontar na segunda metade dos anos 70 - infelizmente, pouco antes de sua morte -, quando, graças à abertura política, os movimentos populares retomaram sua organização, entre eles a luta dos militantes pelos direitos dos negros. É dessa época a criação do Centro de Estudos Afro-Asiáticos e do Instituto Popular de Cultura Negra, órgãos importantes para a retomada dos movimentos negros no Rio de Janeiro. Muito ligado aos dirigentes e militantes do Centro e do Instituto, Candeia funda o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, com duas premissas básicas: a "valorização das culturas negras em tudo o que se refere às suas aspirações" e também a "valorização da manifestação da arte popular, há muito banida das escolas de samba".

 

Juntamente com a criação da Quilombo, Candeia finca as estacas do seu perfil de contestador atuante, com a publicação em livro do manifesto "Escola de Samba, Árvore que Esqueceu a Raiz". Nos anos de 1978 e 1981 (último ano de sua existência), a Quilombo encerrou o Carnaval do Rio, desfilando na avenida Rio Branco. A necessidade de criação da escola foi assim justificada por Candeia, em entrevista: "A criação da Quilombo foi por amor ao sambista e à nossa gente. Foi para conscientizar, para preservar nossa cultura, em defesa do que representam Rufino, Chico Santana, Alberto Lonato. Quilombo é uma tentativa de reabilitar o espírito comunitário da nossa gente e de sacudir a consciência desse pessoal". Fazia absoluta questão de lembrar que teve parceiros na empreitada, gente que muito ajudou a concretizar o sonho: "Juarez Barroso, Lena Frias, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Monarco, Waldir, um estivador do cais do porto que é presidente da Quilombo, João Batista, Jorge Coutinho. A primeira pessoa com quem conversei sobre a idéia de fazer a Quilombo foi Juarez Barroso, que me deu uma espécie de aval. Passei noites de insônia rolando de um lado para o outro com essa preocupação".

 

Sobre sua atuação nos movimentos negros, em defesa de sua raça, Candeia foi sempre objetivo: "Houve a libertação da escravatura, mas não prepararam o negro para assumir uma posição na sociedade. Não adianta libertar o negro para deixá-lo marginalizado no meio da rua, perambulando, assaltando, porque não tem o que fazer, ficando na ociosidade. Ele ficou escravizado por outro meio, sem o chicote, mas ficou alijado do processo de desenvolvimento social".

 

Candeia ficou um pouco esquecido, para voltar a brilhar em 1995, quando Martinho da Vila (parceiro do grande sambista) gravou o disco "Tá Delícia, Tá Gostoso", no qual inclui um "pot-pourri' chamado "Em memória de Candeia", que tinha as faixas "Dia de Graça", "Filosofia do Samba", "De Qualquer  Maneira", "Peixeiro Grã-fino" e "Não Tem Vencedor". No ano seguinte foi a vez de Zeca Pagodinho incluir no belo CD "Deixa Clarear" a regravação, juntamente com a Velha Guarda da Portela, de um samba que tinha a cara e a marca de Candeia (apesar de não ser de sua autoria, e sim de Alcides Dias Lopes), por ter sido por ele gravado com enorme maestria, "Vivo Isolado do Mundo". Esse samba foi registrado por Candeia no melhor disco de sua carreira, "Axé", de 1978.

 

Enquanto houver samba haverá Candeia. A máxima está traduzida na canção-homenagem composta por Luiz Carlos da Vila, lembrando e perpetuando a memória do mestre e amigo, que tem uns versos assim: "A chama não se apagou/ Nem se apagará/ És luz de eterno fulgor, Candeia/ O tempo que o samba viver/ O sonho não vai acabar/ E ninguém irá esquecer Candeia". Em 1997 relançados em CD três discos de Candeia: "Samba da Antiga", de 1970,

 

 "Filosofia do Samba", lançado originalmente em 1971, e "Samba de Roda", de 1974. "De qualquer maneira, meu amor, eu canto/ De qualquer maneira, meu encanto, eu vou sambar." Candeia vivia para a música, para o samba, o partido-alto, a escola e a atuação constante em defesa de seus ideais. "O samba é um negócio que toma conta da gente. A gente não pode forjar uma situação. Mas uma coisa é certa: numa escola de samba o agrupamento é sempre das pastoras. O partido-alto é o homem quem mostra mais sua vocação de versejador, como cantador, como partideiro. Até na dança ele mostra um outro lado: batucada, pernada, do samba pesado." Bom malandro, Candeia fazia questão de deixar bem clara a diferença existente entre malandro e vagabundo, como explicou durante uma entrevista: "Malandro não era o cara ocioso, vagabundo, era o espertalhão, vivia no jogo, no carteado, tinha cinco, dez mulheres, gostava de um baile, uma doce vida. Não era o marginal de hoje".

 

Candeia foi um homem valente, que enfrentou algumas adversidades na vida com determinação e força. Viveu os seus últimos anos (mais de dez) preso a uma cadeira de rodas, em decorrência de um tiro na coluna vertebral - depois de uma discussão no trânsito, no final da década de 60. Funcionário da Polícia Civil, Candeia se aposentou por invalidez após o acidente e pôde, então, se dedicar mais à música, aos movimentos musicais e às causas sociais de seu povo.