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Acervo Virtual Antônio Candeia Filho

Os 80 anos de Candeia, um defensor do samba-enredo, por Ana Ferraz

 

Músico dirigia a ala de compositores da Portela quando escreveu um manifesto contra o desvirtuamento das tradições

 

Quando era adolescente, a cantora e compositora Teresa Cristina só queria saber de ouvir o som negro americano. Em seu toca-discos revezavam-se fazedores de sucessos da Motown, como Barry White e Diana Ross. Tempos depois, estudante de Literatura Brasileira, viveu uma epifania quando um amigo lhe trouxe o CD Samba de Roda, de Candeia. Ao colocar o disco, foi invadida por uma onda de emoção. “Conhecia todas as músicas, pois meu pai ouvia muito Candeia. Foi uma sensação mística, uma conversão. No mesmo momento tive vergonha por não ter prestado atenção numa obra tão rica e me veio uma voz que dizia: ‘Você tem de mostrar para seu pai que entendeu o Candeia’.”

 

A intérprete, então com 25 anos, iniciava-se na profissão e o reencontro com a obra de Antonio Candeia Filho (1935-1978), ardoroso defensor do samba tradicional e autor de obras-primas imortalizadas por Cartola e Clara Nunes, foi definidor. “Minha carreira se divide entre antes e depois de Candeia.” Teresa seguiu o chamado. Procurou o biógrafo do compositor, João Baptista Vargens, foi atrás da Velha-Guarda da Portela, de Monarco, Tia Surica. Com o grupo Semente, começou a cantar Candeia. Mergulhou nos sambas de terreiro, recebeu de Cristina Buarque fitas com bambas como Zé Ketti e Clara Nunes. “A partir dessas pessoas incríveis construí minha base musical.”

 

Neste ano em que o compositor completaria 80 anos, Teresa vive nova grande emoção. Com Moacyr Luz e Cláudio Russo compôs o samba-enredo que o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Renascer de Jacarepaguá, do grupo de acesso, leva à passarela do samba carioca neste sábado de Carnaval,Candeia! Manifesto ao Povo em Forma de Arte.

 

“O dia que recebi o convite foi mágico. Um desses pequenos milagres que passamos a não prestar atenção.” Ela relembra que estava em casa quando decidiu ir ao Samba do Trabalhador, que Moacyr Luz promove às segundas-feiras. Lá, o carnavalesco da Renascer, Jorge Caribé, dizia ao dono da festa que pretendia convidá-la para a missão de participar da composição do samba-enredo. “Achei que não saberia fazer, ainda mais com o andamento louco de hoje. Mas a questão é que não se tratava de qualquer tema, era para falar de um amor meu. Topei na hora.”

 

Em duas reuniões letra e melodia estavam prontas. A fortalecer o sortilégio, Teresa diz que acabara de escrever um verso e correu para mostrar aos parceiros quando teve outra surpresa. “Eles tinham criado a mesma frase, que diz assim: ‘Antonio, filho da flecha certeira’, uma referência a Oxóssi, de quem era filho espiritual. Candeia tem muita força, ele sobrevive, era um líder iluminado.”

 

A alegria da compositora neste ano de homenagens a Candeia – além do samba da Renascer, o selo Discobertas, do pesquisador Marcelo Froes, acaba de lançar parte da obra do compositor na caixa de cinco CDs Sou Mais o Samba (110 reais) – talvez amenize a tristeza que a invadiu quando idealizou aquele que considera o show mais importante de sua carreira. Teresa Cristina Canta Candeia tem um recorde ao avesso, três apresentações. “Não consegui patrocínio da Natura ou da Petrobras. Candeia não foi suficiente para nenhuma dessas marcas. Nem para a Prefeitura do Rio de Janeiro, ninguém quis. Para esses ‘mecenas’, Candeia ainda não é um nome.” Das três únicas récitas, em 2013, duas ela pagou do próprio bolso. A outra foi bancada por Paulo Jobim.

 

“Em 14 anos de pires na mão para mostrar Candeia, essa voz ainda muito necessária, aprendi que só querem dar

dinheiro a quem já tem, homenagear alguém que todo mundo conhece. A impressão é de que esse dinheiro de patrocínio está sempre nas mesmas mãos. Quem é amigo vai e pega.” Para Teresa, o convite da Renascer mostra uma compreensão de sua conexão com o portelense que se recusou a aceitar certas “modernidades”, entre as quais o surgimento da figura do carnavalesco, “pois antes quem escolhia o tema eram integrantes da escola”.

 

Em resposta ao que considerou um processo de descaracterização do samba autêntico, em 1975 Candeia criou o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo. “Ele começou a perceber que as escolas não estavam mais voltadas à tradição, às danças de porta-bandeira e mestre-sala, aos sambas de terreiro”, conta Selma, de 55 anos, filha do sambista e atual presidente do grêmio. Seu pai dirigia a ala de compositores da Portela quando escreveu um manifesto contra o desvirtuamento das tradições, recebido com desinteresse pelos dirigentes portelenses. Afastou-se da escola e passou a dedicar-se ao centro de preservação da arte negra que fundou no subúrbio de Acari.

 

“Ele percebeu que o negro precisava ter um espaço. Sambista sempre foi perseguido, considerado ladrão, maconheiro. Ele sofreu na pele esse tipo de perseguição e então tentou modificar o cenário. Meu pai era filho único, de família pequena, começou a estudar, fez concurso para a Polícia Civil. Era linha-dura, totalmente xerife, foi durão comigo também.”

 

Com quase 2 metros de altura, corpo domado pela atividade física e voz de comando, sofreu muito ao ficar paraplégico em 1965, numa briga de trânsito. Enquanto discutia com um motorista de caminhão que fechou seu carro, o colega deste desferiu cinco tiros, um dos quais se alojou na coluna. “Eu tinha 4 anos e lembro como ele sofria, não se adaptava à cadeira de rodas. Àquela altura tinha discos gravados, participava de programas de rádio e tevê. O crescimento maior dele como sambista deu-se a partir desse momento.”

 

Amigos da Velha-Guarda ajudaram Candeia a superar a tristeza. Chegavam do samba às 5 da manhã e continuavam a festa na varanda da casa do sambista. “Era uma casa de malucos. Pão com mortadela e samba rolando”, diverte-se Selma. “Minha música de ninar era samba. Festa de aniversário era samba. Tudo era samba.”

 

Froes, que pesquisa a obra de Candeia desde 2010, acha que ainda falta reconhecimento ao artista, que morreu aos 43 anos, deixou poucos discos, mas um repertório rico e atemporal, com músicas que circulam há 50 anos. “Ele é um dos pilares do samba dos anos 1960 e 1970, a base de tudo que se fez no gênero nessas últimas décadas.” Na caixa recém-lançada estão os três primeiros discos do sambista, Candeia (1970), Seguinte... Raiz (1971) e Samba de Roda (1975). Os outros dois CDs trazem raridades, como A La Orilla del Mar, a versão em espanhol de O Mar Serenou, interpretada por Martinha.

 

Filho de mãe beata, Candeia teve de se submeter a contragosto às vontades devocionais da matriarca e foi coroinha na Igreja de São Luiz Gonzaga, em Madureira. “Depois percebeu as raízes, caiu no samba e no candomblé, tinha o maior orgulho de ser filho de Oxóssi e Oxum”, revela Selma. Entre as memórias primeiras, lembra-se do pai em pleno processo criativo. “Ele não me deixava ir brincar na rua antes de anotar os versos. Levantava com o samba na cabeça, me chamava e dizia ‘Pega lá a caneta e escreve pro papai’. Era espontâneo, tinha de ser anotado na hora para não perder. Ficava solfejando e eu ali, doida para ir rolar bolinha de gude e peão com os meninos. Meu irmão mais velho, Jairo, era mais desligado, a tarefa de copiar era minha.”

 

Moacyr Luz, que tinha 20 anos quando conheceu Candeia, afirma que a liderança do compositor era nítida. “Ele numa cadeira de rodas, dando o tom das músicas, craques como Wilson Moreira no prato e faca, todos na mesma roda, um sonho.” Ele destaca a composição Me Alucina e considera Pintura sem Arte e Dia de Graça manifestos fundamentais do samba.

 

“Em conversa com Guinga, soube que Prece ao Sol foi feito na primeira fase de recuperação do acidente. Acabei gravando esse desabafo em 2001.” Para o compositor, o samba da Renascer, inspirado no sucesso O Mar Serenou, é sua contribuição, de Teresa e Russo por tanta inspiração.  E é categórico: “Não tenho dúvidas em afirmar que, se uma roda de samba não tocar nada de Candeia, eu desconsidero...”

 

 

Candeia: há 75 anos nascia um mestre, por Julio Cesar de Barros - 17/8/2010

 

Antonio Candeia Filho nasceu no dia 17 de agosto de 1935 e morreu no dia 16 de novembro de 1978 na cidade do Rio de Janeiro. Filho de um tipógrafo que tocava flauta, o menino Candeia cresceu no meio de músicos, nas festas que seu pai promovia ao som do choro e do samba. Jovem dinâmico, Candeia tocava violão e cavaquinho, jogava capoeira e frequentava terreiros de candomblé. Vítima de uma fatalidade, foi parar numa cadeira de rodas, seguiu em frente e se tornou mentor e mito entre os sambistas. Compôs em 1953, aos 17 anos, seu primeiro samba-enredo, Seis Datas Magnas, com Altair Marinho, o Prego, levando a Portela ao título com notas dez em todos os quesitos. Foi a primeira de seis vitórias no concurso interno de samba-enredo da escola. Compôs também Festas Juninas em Fevereiro (com o irmão Valdir 59), de 1955, classificando a escola em terceiro lugar no desfile. Em 1957, o samba-enredo Legados de D. João VI (também com o irmão), levou a escola a novo título.

 

Voltou a vencer em 1959 com Brasil, Panteão de Glórias (com Casquinha, Bubu, Valdir 59 e Picolino) e a Portela obteve mais um título no carnaval carioca. No ano do IV Centenário do Rio de Janeiro, o samba Histórias e Tradições do Rio Quatrocentão deu à agremiação de Osvaldo Cruz a terceiro colocação. Seus sambas-enredo, no entanto, não fizeram o mesmo sucesso que seus partidos-altos, cujos refrões são cantados até hoje nos terreiros de samba de norte a sul do país. É o caso de Filosofia do Samba, gravado por Paulinho da Viola.

 

 A Flor e o Samba, de refrão simples, sucesso na voz de Martinho da Vila, que dizia:

 

Vem sambar Iaiá

Vem sambar ioiô

Iaiá, Ioiô

 

Essas letras animam as rodas em que os cantores improvisam versos, que intercalam com o refrão. Candeia era também um mestre improvisador. Alguns de seus versos improvisados se tornaram tão famosos que foram gravados junto com refrões de terceiros, como se fizessem parte da música original. Seus dotes de partideiro foram imortalizados em três álbuns denominados Partido em 5, lançados entre 1975 e 1977, com a participação de outros quatro sambistas. No início dos anos 60, Candeia dirigiu o conjunto Mensageiros do Samba e participou do movimento de revitalização do samba promovido pelo Centro Popular de Cultura, CPC. Mas o que poderia dar em militância política gorou, quando ele entrou para a polícia. Foi um policial truculento, que acabou se afastando do convívio dos antigos companheiros. Várias vezes interrompeu rodas de samba por perturbação da ordem pública, estranhando os amigos e sua origem. Contam que certa vez chegou a prender o próprio irmão, Valdir. Certo dia enquadrou o ainda desconhecido Paulinho da Viola, que jogava sinuca num bar. Numa discussão de trânsito, em 1965, desceu do carro e descarregou o revólver contra o motorista de um caminhão, que revidou, acertando-lhe um tiro na coluna vertebral. Candeia ficou paraplégico. A tragédia transformou sua vida. Ou o devolveu às suas origens. Na letra de seus sambas se podem notar os reflexos de seu sofrimento:

 

Se eu tiver que chorar

Choro cantando

Pra ninguém me ver sofrendo

E dizer que estou pagando

 

 E foi cantando que ele chorou. Mas Candeia ergueu a cabeça e firmou-se como líder entre os grandes sambistas cariocas. Passou a reunir a fina flor do samba em sua casa para memoráveis pagodes de fundo de quintal. O compositor e partideiro estava em plena forma e encantava a todos com bons sambas de melodia rica. Tirá-lo de casa, no entanto, foi tarefa difícil. Em cadeira de rodas, temia que sentissem pena dele. Até que um dia os amigos conseguiram fazê-lo se reencontrar com o público. Foi numa noite, no Teatro Opinião. A casa cheia de amigos e convidados, ele entrou em sua cadeira de rodas e foi cantando um samba novo, De Qualquer Maneira, ao som de um violão:

 

Sentando em trono de rei

Ou aqui nesta cadeira

Eu já disse, já falei

Que eu canto de qualquer maneira

Quem é bamba não bambeia

Digo com convicção

Enquanto houver samba nas veias

Empunharei meu violão

De qualquer maneira meu amor eu canto

De qualquer maneira, meu encanto

Eu vou cantar

 

Poucos conseguiram conter as lágrimas. A peça É sangue na veia, é Candeia, de Eduardo Rieche, vencedora do concurso nacional de dramaturgia promovido pelo CCBB, em 2007, mostrou a cena. Candeia lutou contra a melancolia até o fim da vida, mas ela não o abandonou. Nos versos de Preciso Me Encontrar (gravado por Cartola e mais recentemente por Marisa Monte), a sombra da tragédia pessoal:

 

Deixe-me ir, preciso andar

Vou por aí a procurar

Sorrir pra não chorar

Quero assistir o sol nascer

Ver as águas do rio correr

Ouvir os pássaros a cantar

Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir, preciso andar

Vou por aí a procurar

Sorrir pra não chorar

 

Em 1970 lançou seu primeiro LP, Candeia (relançado como Samba da Antiga, em 1975) e, em 1971, um segundo disco, Seguinte…Raiz Candeia, no qual se destaca Quarto Escuro, de tom romântico e melancólico :

 

Não acende a luz dentro do quarto

Volto para os teus braços aceso de amor

Deixei lá fora os meus fracassos

Meus lábios contaram-me os segredos

Verdade do amor sem medo

 

A melancolia e o tom soturno dos sambas líricos de Candeia reaparecem naquele que é apontado como seu melhor disco, Axé, de 1978. Na faixa Pintura Sem Arte, ele chora:

 

Me sinto igual a uma folha caída

Sou o adeus de quem parte

Para quem a vida é pintura sem arte

 

Outra faixa desse disco, Amor não É Brinquedo, pinta com cores fortes velhas cicatrizes:

 

(…) Se estás procurando distração

O romance terminou mais cedo

Peço por favor

Pra não brincar com meu segredo

Verdadeiro amor não é brinquedo (…)

 

Aos jovens que o procuravam para mostrar seus sambas, sempre dava conselhos: “Estude, sem estudo você nunca será nada na vida”. Respeitado no morro e no asfalto, Candeia foi um militante negro avesso ao preconceito de mão invertida. Jamais fez distinção entre negros e brancos, que ele sabia estarem igualados na luta pela vida. Aos cultores de africanismos e americanismos ele contrapunha estes versos:

 

Eu não sou africano

Nem norte-americano

Ao som da cuíca e pandeiro

Sou mais o samba brasileiro

 

Sem radicalismos, cantou as desigualdades sociais, exaltou o samba e a cultura negra, cultuou os orixás. Mesmo não chamando para si uma missão, virou um mito, líder de uma resistência que se confundia com a oposição à ditadura militar. Mas sua preocupação maior era cultural. Convencido de que a escola de samba era uma “árvore que perdeu a raiz”, deixou a Portela, que julgava descaracterizada, e com um punhado de companheiros fundou, em dezembro de 1975, o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, sob a bandeira do “samba autêntico”. Candeia chegou a escrever um livro com suas críticas à forma como as escolas se apresentavam àquela altura e, de modo saudosista, indicando como saída a retomada de tradições antigas, que os sambistas por motivos os mais variados haviam abandonado. Trata-se de Escola de Samba – Árvore que Esqueceu a Raiz, Antônio Candeia Filho e Isnard Araújo, Editora Lidador, 1978. A saga da criação da Quilombo foi mostrada no documentário Eu sou o povo (2008), de Bruno Bacellar, Luís Fernando Couto e Regina Rocha.

 

Candeia morreu e deixou a escola, que desfilando fora das passarelas oficiais saiu pela última vez em 2003. Um núcleo remanescente ainda realizou até recentemente rodas de samba na sede, na Fazenda Botafogo, em Coelho Neto, bairro da Zona Norte carioca, e movimentou um vagão no Trem do Samba, que todo ano, por ocasião do Dia Nacional do Samba (2 de dezembro), sai da estação da Central até Osvaldo Cruz carregado de sambistas. A face dura e militante e as emboscadas do destino não conseguiram esconder o homem afável, justo e de grande sensibilidade no qual Candeia se transformou. Mais conhecido por seus sambas de partido alto, Candeia deixou uma vasta coleção de sambas líricos, menos conhecidos. Em sua curta existência de 43 anos, ele amou e soube como poucos cantar esse sentimento.

 

 

Candeia: samba e resistência, por Luís Pimentel - 27/7/2004

 

“Hoje é manhã de carnaval/Há explendor/As escolas vão desfilar garbosamente/E aquela gente de cor/Com a imponência de um rei/Vai pisar na passarela”. (Dia de graça)

 

Antonio Candeia Filho é samba e resistência. O grande compositor nasceu em 1935 (17 de agosto) e morreu em 1978 (dia 16 de novembro). Viveu pouco, apenas 43 anos, mas criou intensamente e deixou uma obra e uma história de vida que só enchem de orgulho seus pares e seus seguidores. Mito da resistência cultural brasileira – a criação da escola de samba Quilombo, em meados da década de 70, é o exemplo maior de sua identificação e militância nessa área –, o compositor é até hoje um dos grandes nomes no panteão da Portela.

 

Candeia começou a fazer músicas ainda na adolescência, por inspiração caseira. Seu pai tocava flauta e carregava o pequeno Antonio para as rodas de samba e de choro que ferviam em Oswaldo Cruz e Madureira. “Meu pai eu só vim a entender quando tinha uns 12 para 14 anos. A princípio eu sentia uma certa frustração. Nos aniversários não tinha nada desses aniversários normais com bola, sorvete, chocolate, um bolozinho que a mãe da criança fazia. No meu aniversário meu pai fazia uma tremenda feijoada e quem vinha eram somente adultos. Não havia participação direta de criança da minha idade. Muita roda de samba, muita cachacinha boa, e eu olhando”, disse em uma de suas últimas entrevistas. Começou a freqüentar a Portela, virou compositor da escola e em 1953, antes de completar 18 anos, viu sua gloriosa agremiação de Madureira desfilar com um samba-enredo de sua autoria, As seis cartas magnas.

 

O Candeia participativo e contestador desponta na segunda metade dos anos 70 – infelizmente, pouco antes de sua morte – quando, graças à abertura política, os movimentos populares retomaram sua organização, entre esses movimentos a luta dos militantes pelos direitos dos negros. É dessa época a criação do Centro de Estudos Afro-Asiáticos e do Instituto Popular de Cultura Negra, órgãos importantes para a retomada dos movimentos negros no Rio de Janeiro. Muito ligado aos dirigentes e militantes do Centro e do Instituto, Candeia funda o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, com duas premissas básicas: a “valorização das culturas negras em tudo o que se refere às suas aspirações” e também a “valorização da manifestação da arte popular, há muito banida das escolas de samba”.

 

Candeia ficou um pouco esquecido, para voltar a brilhar em 1995, quando o parceiro Martinho da Vila gravou o disco Tá delícia, tá gostoso, no qual incluiu um pot-pourri chamado “Em memória de Candeia”, que tinha as faixas Dia de graça, Filosofia do samba, De qualquer maneira, Peixeiro grã-fino e Não tem vencedor. No ano seguinte foi a vez de Zeca Pagodinho incluir no belo CD Deixa clarear a regravação, juntamente com a Velha Guarda da Portela, de um samba que tinha a cara e a marca de Candeia (apesar de não ser de sua autoria, e sim de Alcides Malandro Histórico), por ter sido por ele gravado com enorme maestria, Vivo isolado do mundo. Esse samba foi registrado por Candeia no melhor disco de sua carreira, Axé, de 1978.

 

Enquanto houver samba haverá Candeia. A máxima está traduzida na canção-homenagem composta por Luiz Carlos da Vila, lembrando e perpetuando a memória do mestre e amigo: “A chama não se apagou/Nem se apagará/És luz de eterno fulgor, Candeia/O tempo que o samba viver/O sonho não vai acabar/E ninguém irá esquecer Candeia”. Em 1997 foram relançados em CD três discos de Candeia: Samba da antiga, de 1970, Filosofia do samba, lançado originalmente em 1971 e Samba de roda, de 1974.

 

Candeia foi um homem valente, que enfrentou algumas adversidades na vida com determinação e força. Viveu os seus últimos anos (mais de 10) preso a uma cadeira de rodas, em decorrência de um tiro na coluna vertebral – depois de uma discussão no trânsito, no final da década de sessenta. Policial Civil, Candeia se aposentou por invalidez após o acidente e pôde, então, se dedicar mais à música, aos movimentos musicais e às causas sociais de seu povo.

 

 

Picolino da Portela: uma luz que não se apaga, por Gerdal J. Paula - 12/02/2014

 

"Quando no mar uma embarcação a navegar/deixa um coração a soluçar/por alguém que partiu pra não voltar..."

 

Há alguns anos, na única vez em que estive em Madureira por causa da celebração do Dia Nacional do Samba, encontrei, por acaso, lá pelas tantas, em rua próxima a um dos lados da estação ferroviária, um dos responsáveis pela revivência dessa festa no bairro, Marquinhos de Oswaldo Cruz. Conversando com ele, destacamos a figura de um grande compositor portelense, que não é dos mais visados na animação das rodas ou em regravações: Claudemiro José Rodrigues, o Picolino (fotos abaixo). Lembro-me até do Marquinhos indicando-me, não muito distante de onde estávamos, em gesto elevado e alongado de braço, a casa onde havia morado o compositor, que se aposentara do batente pelo Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. Assim como "O Teu Passado Impede o Futuro", que gravou em elepê de capa abaixo reproduzida, outra pepita do samba em tom menor, "Lenços Brancos" (de versos iniciais em epígrafe), é obra maior da lavra de Picolino, muito bem cantada por sua grande intérprete, Eliana Pittman.

 

Também na voz dessa cantora carioca faz a sua saudação a outros bambas em "Tô Chegando, Já Cheguei", ele que, em 1950, aos 20 anos, adentrou pela primeira vez, para ficar até a morte, o terreiro portelense, egresso, já compositor, do bloco Unidos da Tamarineira, de Oswaldo Cruz. Conhecendo na nova agremiação Candeia e Waldir 59, nela integraria com eles um setor famoso no desfile de carnaval, a Ala dos Impossíveis (a primeira a surgir com coreografia), que lhes possibilitou, em meados dos anos 50, no clube High Life, na Glória, apresentação com as orquestras de Severino Araújo e Cipó. Em 1957, saborearam, juntos, o prazer de ver a azul e branco atravessar a passarela levando no gogó o belo "lençol" (samba descritivo e longo) que fizeram para o enredo "Legados de D. João VI", gravado naquele mesmo ano pela Sinter em "A Vitoriosa Escola de Samba Portela", um pioneiro elepê da escola.

 

Ainda com Candeia e mais Casquinha, Casemiro, Arlindo, Jorge do Violão e Davi do Pandeiro, formou, em princípios dos anos 60, quando de revitalização do chamado samba de raiz, o grupo Mensageiros do Samba. Uma bolacha da Philips foi a única, então, dessa experiência conjunta a girar no prato da vitrola, consequência que, infelizmente, não viria de outra formação, de 1966: o Trio ABC (foto abaixo), da mesma Portela, em que Picolino teve como parceiros de canto, composição e ritmo Noca (feirante recém-chegado da Paraíso do Tuiuti e levado por Paulinho da Viola à nova escola) e o multifuncional Colombo (peixeiro, guarda portuário, cantor de gafieira, técnico em Comunicação e auditor fiscal do INSS ao longo da vida - um baiano falecido em 2004).

 

Se não chegou ao vinil, o trio teve acesso a programas de grande audiência da nossa tevê, como os de Chacrinha e Flávio Cavalcanti, além de ter realizado shows por todo o país. Em 1967, em festival de músicas de carnaval promovido pela Secretaria de Turismo da então Guanabara e pelo Museu da Imagem e do Som, presidido por Ricardo Cravo Albin, em associação com a TV Excelsior, Picolino, Noca e Colombo obtiveram, na final do Maracanãzinho, a quinta colocação com "Portela Querida" ("Minha Portela querida/és razão da minha própria vida..."). Um samba que ganharia projeção na mídia com a gravação, em compacto simples da Odeon, por sua intérprete no certame, Elza Soares, laureada com o troféu Carmen Miranda, entregue por Aurora Miranda. O coração da cidade, mais uma vez, deixava-se levar pelo rio de beleza musical da Portela, para o qual o afluente Picolino, com suas águas autorais, muito concorreu. Uma saudade que ficou a mais (como ele mesmo cantou em música de Erivaldo Santos e Valentim) e se fixou no firmamento do samba, tornando-se uma outra estrela de Madureira que não se apaga.

 

 

A bela carreira de Teresa Cristina, por Luís Pimentel - 25/1/2011

 

Uma vez ela me contou, numa entrevista para jornal: “Candeia tinha um jongo que dizia: Esse jongo é de Deus, crioula... e o meu pai falava: Essa música é sua. Eu retrucava: O que é isso, pai? Não sou crioula. Eu não queria ser negra, acho até que tinha um pouco de vergonha. Quando reencontrei o disco, já com a cabeça feita, pensei: Puxa, meu pai tinha bom gosto à beça. Comecei a pesquisar sobre o Candeia e a gostar de tudo”.

 

O autor de Peixeiro granfino foi o primeiro, e daí foi um pulo para todos os grandes compositores brasileiros, com ênfase nos bambas da Velha Guarda da Portela. Também para os contemporâneos – tem um disco inteiramente dedicado à obra de Paulinho – e, em seguida, para os próprios recursos criativos. Começou a compor e já tem uma obra considerada.

 

Teresa Cristina nasceu no Rio de Janeiro, em 1968, no último dia (quando o ano não é bissexto) de fevereiro: 28. A carreira, que tem pouco mais de uma década, começou quando ela reuniu craques da voz e dos instrumentos como Bernardo Dantas, João Callado, Pedro Miranda e Ricardo Cotrim, para montar um show em homenagem ao ídolo Candeia. O show não aconteceu, mas o grupo começou a se apresentar no Bar Semente, na Lapa, e o nome do bar virou nome do grupo (que acompanha ela até hoje).

 

– Os meninos do Semente fazem parte de minha história e são a minha história. Quando os conheci, já eram todos músicos. Tiveram paciência infinita com minhas inseguranças, foram fundamentais – ela me contou, também.

 

O disco em homenagem ao Paulinho – outra de suas admirações – foi o primeiro e chama-se A música de Paulinho da Viola. Depois vieram os CDs A vida me fez assim, O mundo é meu lugar, Delicada e Melhor assim, este último lançado no ano passado. A conheci no final dos anos noventa, em rodas de samba como as do Bar Bip Bip, e sempre tive enorme carinho e admiração por Teresa Cristina.

 

 

Da Vila, uma saudade, por Luís Pimentel - 30/10/2008

 

O nosso homenageado está aqui por uma nota triste: esta lembrança é póstuma – e muito sentida por todos os artistas e curtidores da música popular brasileira, território livre em que ele tanto reinou. É o registro da nossa saudade do brilhante cantor e compositor Luiz Carlos da Vila, que a música, o Rio e o Brasil perderam no último dia 20 de outubro.

 

Luiz Carlos Batista – O nome artístico "da Vila" (referência à sua querida Vila da Penha, onde viveu e espalhou simpatia pela Travessa da Amizade) foi incorporado em 1977, após a entrada na ala de compositores da escola de samba Vila Isabel – foi um dos grandes poetas da MPB. Não à toa, tinha carinho especial pela obra de Candeia, que derrama poesia por onda passa. Um lutador do samba desde os tempos da Quilombo, ao lado do próprio Candeia, lutou durante seis anos contra um câncer. Perdeu essa.

 

Co-autor de uma preciosidade do samba-enredo, Kizomba, festa da raça (Valeu, Zumbi!), Luiz Carlos teve sua primeira música gravada na década de 1970, Graças ao mundo, interpretada pelo Conjunto Nosso Samba na década de 1970. Em 1979 compôs em parceria com Rodolpho de Souza, Tião Grande e Jonas Rodrigues, o samba-enredo Os anos dourados de Carlos Magno, com o qual a Unidos de Vila Isabel ganhou o primeiro lugar do Grupo 1B no desfile daquele ano. No ano seguinte, Beth Carvalho interpretou duas composições de sua autoria: Herança (c/ Adilson Victor e Jorge Aragão) e a emblemática e melodicamente riquíssima O sonho não acabou.

 

Luiz Carlos da Vila – que fez no ano passado, pelo sele MEC, um belo disco ao lado do parceiro Cláudio Jorge, Matrizes, nos deixou canções como A luz do vencedor (c/ Candeia), A vida é assim (c/ Carlos Senna e Otacílio da Mangueira), Além da razão (c/ Sombra e Sombrinha), Arco-íris (c/ Sombrinha), Beth Carvalho, a enamorada do samba (c/ Iba Nunes, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós) e Cabô meu pai (c/ Moacyr Luz e Aldir Blanc).

 

Sua alegria e sua poesia já estão nos fazendo falta.

 

 

Paulo da Portela, a dignidade no samba, por Luís Pimentel - 20/6/2011

 

O homem que deu cara, identidade, roupa nova e dignidade ao samba teria feito 110 anos neste 18 de junho. Morreu muito jovem, com 48 anos, no auge da criação, deixando uma quantidade grande de sambistas sem as suas orientações de como compor, viver, organizar um bloco ou uma escola, mas gravou definitivamente o seu nome na história da Portela, do samba, do jongo, do caxambu, da música brasileira e dos movimentos sociais. Enquanto esteve por aqui, Candeia (Antonio Candeia Filho, 1935-1978) não nos deixou mentir: a força, o carisma e a liderança inspiradora do “mestre” Paulo da Portela nortearam seus discursos e os objetivos políticos que vieram a desaguar mais tarde na criação da revolucionária Escola de Samba Quilombo.

 

Aos 10 anos de idade, Paulo Benjamim de Oliveira já morava no subúrbio de Oswaldo Cruz, ocupando uma casa de vila na Estrada da Portela. Dizem que o “da Portela” vem daí. Outros acham que só surgiu mais tarde, quando o sambista começou a mostrar seus dotes na azul e branco da grande águia. Logo fundou o primeiro bloco carnavalesco (de marcha-rancho) do bairro, que tinha o nome (dado por ele, claro), de Ouro Sobre Azul. Registre-se que os nomes dessas pioneiras agremiações eram todos lindos e poéticos: Ameno Resedá, Flor do Sereno, Flor do Abacate, e por aí vai.

 

Paulo viveu uma longa história de amor com sua escola querida. Do primeiro desfile em 1930, quando ela ainda se chamava Quem nos Faz é o Capricho (depois foi Vai Como Pode e, só em 1935, batizada de Portela) até 1941, quando o romance se desfez (talvez por ciúmes), compôs grandes sambas-enredo e conquistou o coração de portelenses de todos os bairros. Ao deixar a escola, depois de se desentender com a diretoria (é sempre assim), ingressou imediatamente numa pequena agremiação recém-formada em Bento Ribeiro, chamada Lira do Amor. Não sem antes registrar seu ressentimento em um samba cheio de dor e poesia: “O meu nome já caiu no esquecimento/O meu nome não interessa a mais ninguém/...Chora, Portela/Minha Portela querida/Eu que te fundei/Serás minha toda a vida”.

 

Sem jamais se afastar do carnaval, Paulo da Portela imperou como sinônimo de talento e inspiração em todas as escolas do Rio de Janeiro. Só veio a fazer forfait na folia em 1949, quando, um mês antes e em pleno esquenta dos tamborins, foi derrubado por um infarto, no dia 31 de janeiro.

 

Dizem que “Madureira chorou”, e muito.