2007-2020 © - webdesign: Luís Fernando Couto

Al rights reserved - LFC - P/2016 @

Count
Acervo Virtual Antônio Candeia Filho

EU SOU POVO!

Direção: Bruno Bacellar, Luís Fernando Couto e Regia Rocha

 

Quilombo e Candeia: histórias entrelaçadas

 

É impossível dissociar a história da Escola com a de Antônio Candeia Filho, seu idealizador. Segundo Nei Lopes (no livro Sambeabá, da editora Casa da Palavra), a firme postura política do compositor portelense que morreu aos 43 anos, em 1978, começou a aflorar justamente em 1975, quando se reestruturou a militância pelos direitos dos negros.

 

Candeia estava descontente na Portela. Em documento para o presidente da Escola Carlos Teixeira Martins feito por ele, por André Motta Lima, Carlos Sabóia Monte, Cláudio Pinheiro e Paulo César Batista de Faria – em 11 de março de 1975 dizia:

“Escola de samba é povo em sua manifestação mais autêntica. Quando se submete a influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura de nosso povo. Essas influências externas sobre as escolas de samba provêm de pessoas que não estão integradas no dia-a-dia das escolas. Não é mais possível continuarem os integrantes da escola sem acompanhar de perto tudo que se passa na Portela”. E apontava uma série de sugestões, como a necessidade da Portela assumir posição de defesa do samba autêntico, que não foram sequer discutidas.

 

Candeia partiu então para a criação de uma escola que representasse um alerta contra as ameaças. No fim de 1975, Edgar Pires (Pintado, cunhado de Candeia) foi pedir apoio para a compra de instrumentos para seu bloco em Rocha Miranda – Quilombo dos Palmares. “Porque não uma escola de samba?”, questionou Candeia.

 

No dia 8 de dezembro nascia a Quilombo. Entre seus principais objetivos estavam o desenvolvimento de um centro de pesquisa de arte negra, atrair os verdadeiros representantes e estudiosos da cultura brasileira, organizar uma escola onde seus compositores ainda não estivessem corrompidos: uma escola que servisse de teto a todos sambistas, negros e brancos, na defesa do autêntico ritmo brasileiro.

 

Em 1976, a comunidade via em todos os fins de semana na quadra da escola grupos de capoeira, maculelê, afoxé e aplaudia artistas como Clara Nunes, João Nogueira, Guilherme de Brito, Paulinho da Viola. Com a boa vontade dos componentes, apresentava-se pelas ruas dos bairros vizinhos. Em 1977, fechou o carnaval da Presidente Vargas: Segundo o professor da UFRJ João Batista, autor de Quilombo, uma Utopia?, por pouco a escola não rouba a cena da Beija-Flor: “desfilando livre e descontraída pela avenida, sem esquemas (...) a Escola de Samba Quilombo mostrou o verdadeiro papel de uma escola de samba e apresentou seu Carnaval de 77 visando apenas realizar a mais genuína festa brasileira”, registrou o jornal A Notícia.

 

Nesta época, marcaram profundamente dois acontecimentos, como conta João Batista: a festa dos estivadores e a dos trabalhadores da construção civil. Em cada ocasião reuniram-se por volta de 3 mil pessoas: “Há muito não se via tanta gente reunida e gente pobre, gente humilde. A partir de então a Quilombo passou a ser observada com mais rigor pelos órgãos de repressão”.