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Acervo Virtual Antônio Candeia Filho

Em 8 de dezembro de 1975, há 40 anos, em Rocha Miranda, Zona Norte do Rio de Janeiro, foi fundada a GRES QUILOMBO, a primeira dissidência da GRES PORTELA. A fundação fora liderada Antônio Candeia Filho (1935-1978), o Candeia, mitológico sambista carioca, autor de clássicos que até hoje são relembrados por antigos e jovens admiradores.

 

A segunda dissidência da GRES PORTELA foi a GRES TRADIÉÉO, fundada, em 1984, em Campinho. Esta foi fundada pelos parentes de José Natalino do Nascimento (1905-1975), o Natal da Portela, um dos fundadores da grande escola de Madureira, após novas divergências com a então cúpula portelense.

 

No caso da GRES QUILOMBO, cuja proposta não era desfilar no Grupo Especial, seu objetivo era manter a tradição do samba, manter-se fiel às raízes africanas e valorizar o patrimônio afrobrasileiro.

 

Entre os que assinaram sua ata de fundação estavam nomes llustres como Paulinho da Viola, Monarco, Eduardo Coutinho, Jacira Silva, Nei Lopes, André Motta Lima, Carlos Saboia Monte (pai de Marisa Monte), Cláudio Pinheiro, Viola e tantos outros.

 

Na verdade, a GRES QUILOMBO era um grande projeto estético-político.

 

Em primeiro lugar, se identificava com as populações quilombolas, principalmente com Zumbi dos Palmares (1655-1695), já que sua quadra era um verdadeiro quilombo. Por isso, adotou o nome Quilombo. Ou seja, a escola fugia do modelo habitual para se inserir na mais perfeita tradição das culturas africanas.

 

Por outro lado, pretendia ser um resgate das grandes tradições do samba carioca, pois, firmava pé no chamado samba de raiz, valorizando batuqueiros das quadras, dos botecos, das esquinas, que não tinham vez na mídia, e cujas obras fugiam dos modelos valorizados pela indústria cultural da época.

 

Em terceiro, a GRES QUILOMBO era uma escola que tinha um relicário de tradições estéticas, pois, trazia uma proposta de revigoramento das tradições afro começadas/sedimentadas por Paulo da Portela, pelas famosas tias baianas da Praça Onze.

 

Em quarto, era uma escola afro de verdade e que não seria de certa forma "contaminada" pelos ditames do capitalismo do carnaval carioca, já que a indústria carnavalesca vinha acabando com diversos instrumentos instrumentais africanos. Por exemplo, a comissão de frente, em geral, antigamente, formada pelos mais antigos integrantes da escola, dava lugar a malabarismos circenses. Surgiam também as chamadas madrinhas ou rainhas de matéria, posto hoje supervalorizado pela visibilidade que dá a foliã. Os enredos sobre cultura brasileira foram atropelados por enredos patrocinados de louvações a culturas estrangeiras ou louvação de celebridades.

 

Ou seja, a GRES QUILOMBO buscava ser uma alternativa ao mundo do samba da época, bastante influenciado pelos valores de classe média ascendente.

 

A GRES Quilombo, neste contexto, pretendia ser um retorno à tradição cultural afro do samba, um novo mergulho em suas raízes, um alerta à descaracterização do desfile, à desvalorização dos tradicionais batuqueiros, retorno à tradição de Paulo da Portela e de outros bambas.

 

Nesse sentido, entre suas maiores contribuições, trata-se do "Manifesto" de fundação da GRES Quilombo", pois, neste raro documento, os sambistas, há 40 anos, identificavam diversos problemas políticos e administrativos e também estéticos - que dificultavam a ascensão das escolas de samba como produto genuinamente afro-brasileiro .

 

Com base no livro "Candeia: luz da inspiração", de João Batista M. Vargens (Martins Fintes/Funarte, RJ, 1987), apresentamos um resumo do manifesto dos sambistas da Portela que criaram a GRES Quilombo.

 

ESCOLA DE SAMBA

"Escola de samba é Povo em sua manifestação mais autêntica!

Quando se submete às influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura de nosso povo.

Se hoje em dia são unânimes opinião e posição contrárias da imprensa em relação à Portela, é porque a Portela, apesar de sua tradição de glória, se deixou descaracterizar pelas interferências de fora. Aceitou passivamente as idéias de um movimento que, sob o pretexto de buscar a evolução, acabou submetendo o samba aos desejos e anseios das pessoas que nada tinham a ver com o samba".

 

MUDANÉAS

"Durante a década de sessenta, o que se viu foi a passagem de pessoas de fora, sem identificação com o samba, para dentro das escolas. O sambista, a princípio, entendeu isso como uma vitória do samba, antes desprezado e até perseguido. O sambista não notou que essas pessoas não estavam na escola para prestigiar o samba. E aí as escolas de samba começaram a mudar. Dentro da escola, o sambista passou a fazer tudo para agradar essas pessoas que chegavam. Com o tempo, o sambista acabou fazendo a mesma coisa com o desfile".

 

CÉPIAS

"A Portela adotou a Águia porque era o símbolo do que voa mais alto, acima de todos. E, inatingível, a Portela nunca imitava nada dos outros. Sempre criava. Hoje, o que a Portela está fazendo é procurar copiar o que se pensa que está dando certo em outras escolas.

Voltando a olhar o samba por si mesma, a Portela voltará a ter os valores imprescindíveis, que tanto serviram para afirmar sua glória. Enganam-se os que pensa, ser impossível recobrar esses valores.

 

MANIFESTO

"Estou chegando...

Venho com fé. Respeito os mitos e tradições. Trago um canto negro. Busco liberdade. Não admito moldes.

As forças contrárias são muitas. Não faz mal...Meus pés estão no chão. Tenho certeza da vitória.

Minhas portas estão abertas. Entre com cuidado. Aqui, todos podem colaborar. Ninguém pode imperar.

Teorias, deixo de lado. Dou vazão à riqueza de um mundo ideal. A sabedoria é meu sustentáculo. O amor é meu principio. A imaginação é minha bandeira".

 

RADICAL

"Não sou radical. Pretendo, apenas, salvaguardar o que resta de uma cultura. Gritarei bem alto explicando um sistema que cala vozes importantes e permite que outras totalmente alheias falem quando bem entendem. Sou franco-atirador. Não almejo glórias. Faço questão de não virar academia. Tampouco palácio. Não atribua a meu nome ao desgastado sufixo ao. Nada de forjadas/malfeitas especulações literárias. Deixo os complexos temas à observação dos verdadeiros intelectuais. Eu sou povo. Basta de complicações. Extraio o belo das coisas simples que me seduzem.

 

Quero sair pelas ruas dos subúrbios com minhas baianas rendadas sambando sem parar. Com minha comissão de frente digna de respeito. Intimamente ligada às minha origens.

 

Artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamentos culturais, profissionais: não me incomodem, por favor.

Sintetizo um mundo mágico.

 

Estou chegando...."

 

CRÍTICAS

"A centralização se tornou demasiada na Portela. As diretorias, de algum tempo para cá, passaram a não mais ouvir as solicitações do componente, nem procurar explicar a ele suas decisões. A organização do Carnaval passou a ficar a cargo de poucas pessoas. Muita gente fica sem saber o que fazer. No desfile, isso se reflete no grande número de diretores responsáveis, que não sabem como agir".

 

GIGANTISMO

"Gigantismo, sem dúvida, atrapalha a escola. Todos os setores são prejudicados por ele. É unânime a opinião de que a Portela cansa, porque ninguém aguenta ver um desfile arrastado. No entanto, o gigantismo é uma falha que decorre da própria escola e das influências externas que agem nefastamente sobre ela. Donos de alas conquistam seus figurantes, procurando angariá-los sem atender os verdadeiros interesses da Portela. Faltam medidas administrativas corajosas de eliminar esse problema".

 

FIGURINOS

"O figurinista, ainda que famoso, precisa conhecer a Portela profundamente. Não adianta imaginar figurinos sem levar em conta os componentes da escola. Como resultante, as fantasias têm sido confeccionadas em total desacordo com os figurinos apresentados.

Algumas alas tomam a si a iniciativa de escolher suas próprias roupas, sem levar em conta o enredo e o figurino recebido e nenhuma medida punitiva ou preventiva é tomada pela diretoria.

 

Há anos gasta-se dinheiro para construir alegorias grandiosas. O resultado nunca é esperado, porque o responsável pelo barracão não está integrado na escola. Os carros são pesados, difíceis de conduzir, quebram e prejudicam a escola".

 

ALEGORIAS

"A partir de determinada época, generalizou-se a idéia de que a alegoria de mão era uma solução visual que emprestaria leveza e facilidade ao desfile. Na realidade, o que se vê é um obstáculo que não deixa sambar. E, além disso, as alegorias de mão ou de carro, não podem ser olhadas separadamente como um simples quesito de julgamento. São antes de mais nada partes integrantes que devem ajudar a contar o enredo e valorizar o desfile da escola".

Diretoria Atual

 

Selma Teixeira Candeia

Presidente

 

Edson Batista de Andrade

Vice-Presdente

 

Janaina Jorge

Secretária

 

Leandro Gomes Candeia

Diretor Administrativo Financeiro

 

Anna Carolina Carlota Mires

Conselho Fiscal

 

Carolina Domiciano de Carvalho

Conselheira Fiscal

 

Suzana Barroso de Mattos

Suplente do Conselho Fiscal